Uma folha branca não significa nada?

O norte-americano John Cage (1912-1992) foi um compositor que, provavelmente, tenha ficado conhecido por apenas uma obra: 4’33”. É uma peça experimental que pode ser tocada por qualquer instrumento e, o que é ainda melhor, por qualquer pessoa.

A partitura instrui o intérprete a NÃO tocar o seu instrumento por exatos quatro minutos e trinta e três segundos, pois a “música”, nesse caso, são os sons do ambiente que o público escuta durante a sua interpretação.

Enfim, uma musiquinha muito fácil.

Mas, por mais que isso possa parecer uma bobagem pura (eu, por exemplo, não pagaria para assistir a um concerto desses, já que posso dedilhá-la de graça no piano aqui em casa), há uma questão interessante de se analisar a coisa não pelo que ela é, mas por aquilo que está ao seu redor.

Imagine uma folha de papel sem nada escrito ou desenhado. Apenas um espaço em branco.

Pois essa área vazia tem, na verdade, a mesma importância do que os elementos escritos ou desenhados sobre ela. É essa separação de fundo e elementos, assim como som e silêncio, que explica a dependência que a nossa percepção tem do ambiente ao redor.

Veja, por exemplo, a clássica figura da duas cabeças viradas uma para outra.

Ou será que estou vendo uma jarra branca? Enfim, as duas opções são válidas. Figura e fundo têm a mesma importância.

Da mesma forma, podemos dizer que tamanho e brilho também são algo relativo. Repare na figura abaixo e diga sem pensar: os tons de cinza do quadrado central dessas duas figuras são iguais?

São. O contraste simultâneo dos quadrados ao redor é que acaba enganando o nosso olhar.

E o diâmetro dos pontos centrais das duas ilustrações, será que é o mesmo?

Sim, é. Os pontos pequenos e grandes no entorno, quando vistos lado a lado, causam essa percepção.

Então, agora que a gente já sabe que não existe o “nada” e que até o ilusório vazio do papel branco tem também a sua função no design, tive uma ideia: vou escrever um livro só de páginas em branco.

De preferência um em que o leitor possa ler durante exatos quatro minutos e trinta e três segundos.

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