Não existe design ruim. Existe design feio.

O designer italiano Bruno Munari (1907-1998) tornou famosa uma frase de seu amigo Antonio Rebolini, que dizia: quando um problema não pode ser resolvido é porque não é um problema. Mas quando um problema pode ser resolvido, então não é um problema.

Nesse sentido, o design de um produto ou gráfico é a solução de um determinado problema, que se resolve, em linhas gerais, através de um processo lógico, coerente e criativo.

Se ele não resolve um determinado problema, ele perde seu próprio sentido. Não é um design, mas apenas um projeto que não cumpre com eficiência o seu propósito. Ainda que possa ser esteticamente atraente.

Lembro que quando estudava Desenho Industrial um colega certa vez desenvolveu um assento, mas que não saiu do papel. Tínhamos um simpático professor de perspectiva, cujo nome se perdeu em algum ponto de fuga da minha memória, que ao verificar o desenho do meu colega, disse com bom-humor:

– Meu filho, sua cadeirinha está interessante. O único problema é que, quem se sentar nela, vai cair.

Ou seja, era apenas mais um projeto com rostinho bonito, mas que não funcionava.

Nem sempre beleza e design falam a mesma língua.

Isso faz você ganhar um sim

Certa vez ouvi o caso de um cara que foi assistir a um show de rock e na saída, ao se deparar com um fila monstruosa para pagar o estacionamento, resolveu perguntar para dois grandalhões que estavam quase na boca do caixa:

– Posso furar a fila? É porque eu odeio ficar em filas.

E, por incrível que pareça, a resposta foi sim. O simples fato dele ter dado um motivo, ainda que totalmente estapafúrdio, fez com que ele ganhasse a vez.

Na verdade, ele pôs em prática um recurso que profissionais de marketing já conhecem há bastante tempo: dar uma razão quando se pede alguma coisa a alguém.

Costumo dizer que cliente não é rei, é parceiro. Se ele tem um problema e você tem a solução, o mundo é perfeito: ele compra o seu produto ou serviço, você recebe seu pagamento e todos ficam felizes.

Mas há casos em que o cliente adia, enrola, disfarça, tosse… e demora para pagar. E isso sempre é mais complicado quando essas relações não são contratuais.

Designers, por exemplo, prestam serviços muitas vezes sem algum tipo de salvaguarda. O problema é que nem eu, nem você somos banco.

Durante dois meses cobrei sem parar uma cliente que não pagava por um pequeno projeto que eu havia feito e entregue. Nada tão monumental assim, mas foi uma lenha receber pelo tal serviço.

Até que um dia escrevi para ela explicando simplesmente o porquê da minha cobrança. E o dinheiro entrou milagrosamente em conta pouco tempo depois.

É claro que nem tudo ocorre cem por cento assim. Mas, de uma forma geral, não é preciso gritar, nem se espernear. Às vezes, basta apenas dar uma pequena explicação, por mais insólita que ela possa parecer, para conseguir algo que queremos.

E agora, já que você chegou até aqui, me faça um favor: leia o meu e-book, que está disponível para download na páginal inicial deste site.

É porque eu odeio ficar em filas.

A lição de Mad Men

O dia em que você conquista um cliente é o dia em que você começa a perdê-lo.

Se você, assim como eu, acompanhou Mad Men, levada ao ar pela HBO, deve se lembrar dessa ótima frase de Roger Sterling, um dos sócios da agência de publicidade da série.

É a mais pura verdade. Tão logo você tem a sorte de ganhar um parceiro de negócios, inicia-se o estágio no qual você constrói uma estratégia para oferecer a ele o seu melhor serviço ou produto

Mas basta ficar um pouco estagnado na abordagem e ligar o piloto automático da comunicação para que ele perceba que você não está mais comprometido com seu sucesso da forma como ele imaginava.

E aí começa o momento em que ele vai buscar a comida na tigela do vizinho.

Porque cliente é interesseiro como gato, não é fiel como cachorro.

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Qual é o seu credo?

Tive um vizinho que morou por pouco tempo no meu prédio. Nunca soube seu nome, mas quando a gente se encontrava casualmente pelas manhãs no elevador, eu lhe desejava bom dia, perguntava se estava tudo bem e ele inevitavelmente me respondia sorrindo:

– Tudo bem, com tendência a melhorar!

Era talvez o seu credo: transmitir uma mensagem positiva em relação à vida.

Certa vez eu o vi no playgroud com sua filha, que na época devia ter uns oito anos de idade. Ele ajudava pacientemente a menina a andar. Ela tinha as perninhas atrofiadas e era semiparalítica.

O fato é que isso não era motivo para que meu vizinho abrisse mão daquilo que ele me dizia pelas manhãs.

Como pessoa ou como empresa, estabelecer um credo pode ser uma das coisas mais poderosas que uma marca pode criar na mente humana. Sobretudo quando às vezes esses valores são postos à prova.

O Google também tinha o seu: Não seja mau. Uma frase simples e que refletia sua cultura despojada e informal (ih, até rimou.)

Soube que recentemente milhares de funcionários da empresa assinaram uma petição solicitando que ela não participasse de um contrato lucrativo com o Departamento de Defesa norte-americano que previa a análise de vídeos e imagens feitas com drones. Afinal, se nesse caso drones ajudam a matar pessoas, por tabela a empresa estaria sendo incoerentemente “má”.

Com isso, o Google desistiu de participar do projeto e demonstrou de alguma forma que seu credo era significativo e autêntico. Mas, por via das dúvidas, abandonou o “não seja mau” e resolveu há poucas semanas mudá-lo para “faça a coisa certa”.

O que talvez, no fundo, seja a mesma coisa.

Vale um bilhão?

    Recentemente minha filha foi assistir ao show da Beyoncé e de seu marido, o rapper Jay-Z, que estiveram numa turnê pela Europa. Mas antes de passar por aqui pela Alemanha as duas estrelas estiveram em Paris, onde fizeram um ensaio fotográfico no Museu do Louvre.

    Dias depois vi numa revista uma das fotos deste ensaio. Em close, os dois lado a lado olhavam seriamente para o leitor. Atrás deles, em segundo plano, o quadro da Mona Lisa. O título da matéria: “Três ícones”.

    A legenda da foto informava que a pintura mais famosa do mundo tinha o valor estimado em um bilhão de dólares. Nada mau para uma obra que, como muitas, começou a surgir em um ateliê modesto na Itália renascentista.

    Agora, no início de agosto, ao atingir o preço da ação em US$ 207, a Apple viu sua marca atingir o mesmo valor de um trilhão de dólares. Nada mau para uma empresa que, como muitas, começou a surgir numa garagem modesta na América dos anos 1970.

    Mas o que me fez coçar a cabeça foi saber que, segundo a revista Forbes, a fortuna de Jay-Z beira os US$ 900 milhões. Enquanto sua mulher tem que se contentar com apenas US$ 350 milhões de patrimônio (descontado o património físico da moça, é claro).

    Nada, absolutamente nada, contra a riqueza deles. Muito pelo contrário. Admiro os vencedores.

    Mas será que uma Beyoncé e um Jay-Z somados valem mais do que uma Mona Lisa?

Como atrair clientes

Não sou um grande fã de animais domésticos. Mas, como sou um sujeito democrático, aceitei a ideia que meu filho teve em ter aqui em casa dois coelhos.

É lógico que me arrependi logo depois de ter dito sim, mas já era tarde. E não havia nenhuma cartola mágica por perto por onde eu pudesse enfiar os bichos de volta.

Com o tempo, venho me acostumando com eles. São dóceis. Não emitem som algum. Parecem até mudos. E o fato de serem dotados com uma visão grande angular de quase 360° talvez explique o porquê de ficarem meio confusos em distinguir objetos muito próximos a eles.

Se você quiser que eles percorram por um determinado caminho, é preciso fazer uma espécie de baliza e bloquear opções alternativas por onde eles pudessem eventualmente seguir.

De certa forma, seu cliente também é um cara disperso. Todos nós somos. É fácil demais não focarmos em um propósito específico.

Segundo um artigo recente do NYT, a Amazon americana desenvolveu mais de uma centena de marcas próprias. Se você procurar por uma pilha alcalina, por exemplo, ou algum outro item doméstico, o site vai conduzi-lo (ou induzi-lo) ao AmazonBasics, de modo que você siga qual um coelhinho em direção à linha de produtos da empresa.

Nesse universo competitivo cada vez mais acirrado, como se defender contra um concorrente que dispõe de um leque de produtos próprios?

Através do reconhecimento da sua marca como algo superior em termos de qualidade e design.

É mostrar ao seu público o que você quer que ele veja, e atraí-lo para a experiência memorável e única que somente a sua marca pode oferecer.

O design da sua marca acaba sendo o diferencial que elimina a visão angular de 360° de seu cliente cunicular.

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Como fazer algo melhor do que antes

Nunca fui um ilustrador, mas na minha época de estudante de Desenho Industrial havia uma disciplina de desenho artístico, cujo professor era um japonês radicado no Brasil há alguns anos. Era um daqueles caras que economizavam nas palavras e no riso. Mas gastava fácil o seu talento no modo de ensinar.

Os alunos ajustavam o papel no cavalete e começavam a traçar a carvão e a giz algum objeto exposto na sala.

Certa vez, quando acabei um trabalho ele o examinou seriamente e, após algum tempo, assentiu com a cabeça: “Bom.” Mais uma pausa oriental eterna que durou alguns segundos, e disse: “Faz outro”.

Como assim? Horas dando o melhor de mim naquele cavalete e ter que começar tudo do zero outra vez?

Quis matar o japonês. Mas imaginei que ele pudesse ser uma espécie de seu Miyagi, e acabei deixando pra lá.

Anos mais tarde, trabalhando com infografia na redação de um jornal, havia um colega que tinha um traço espectacular, com uma habilidade inata que ele podia empregar tanto para uma charge quanto para uma ilustração elaborada.

Fazia uma obra de arte com uma ideia na cabeça e um mouse na mão. Seu problema era que, na maioria das vezes, após horas desenhando ele esquecia de salvar o trabalho. E era nesse momento que seu computador esbaforido resolvia travar – e ele perdia tudo.

No desespero e correndo contra o relógio, fazia tudo outra vez. Só que com muito mais rapidez.

O que liga essas duas histórias é que, inevitavelmente, os desenhos resultantes saiam surpreendentemente melhores. Mais interessantes do que as versões trabalhadas antes em excesso.

Por que? Porque a gente acaba se apegando a uma ideia única e bloqueando as alternativas. E de alguma forma a gente não apaga a imagem anterior. Ela fica ali, visualmente gravada na memória.

Na nossa vida diária profissional também é assim: podemos iniciar, desenvolver e apresentar um projeto, que acaba sendo preterido. É a hora então de ativar a memória visual, manter o básico, eliminar a gordura e refinar o essencial. E criar uma versão ainda melhor.

Como estragar uma marca

Como estragar uma marca

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<h6><img class=”alignnone size-full wp-image-574″ src=”https://andreprovedel.com.br/wp-content/uploads/2019/05/vermeer.jpg” alt=”” width=”1000″ height=”669″ /></h6>
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<p class=”lead”>Falando um pouco de arte: se eu tivesse que selecionar três dos meus pintores favoritos, sem dúvida Jan Vermeer (1632-1675) estaria entre eles.</p>
<p class=”lead”>Sempre gostei da luz difusa, da atmosfera íntima e silenciosa e das pessoas comuns da sua época que só ele era capaz de retratar.</p>
<p class=”lead”>Esta semana, durante um período de restauração, um dos seus quadros, “Leitora à Janela”, exposto há séculos em Dresden, na <span class=”text_exposed_show”>Alemanha, revelou um outro personagem: após a morte de Vermeer, algum pintor, com pinta de impostor, havia feito uma “melhoria” na pintura, colocando um cupido no fundo da cena.</span></p>
<p class=”lead”>Especula-se que alguém de bom senso, lá pelo século dezoito, tenha achado que aquele garotinho de arco e flecha estava ali de gaiato, e mandou restaurar a obra de acordo com o que Vermeer havia feito originalmente: apenas uma parede lisa, que não desviasse o foco da nossa atenção na mulher que lê a carta.</p>
<p class=”lead”>Mexer na obra alheia frequentemente não é um bom negócio. Sobretudo quando o negócio é reposicionar uma marca.</p>
<p class=”lead”>O reposiciosamento de uma marca (rebranding) ocorre quando há uma mudança na estratégia corporativa, que procura atender a um determinado público-alvo.</p>
<p class=”lead”>Mas há um enorme risco associado aí. Tudo porque, ao contrário do que ocorre com uma startup, uma empresa estabelecida há anos no mercado já criou uma determinada percepção de si própria na mente do consumidor. Parece simples, mas um redesenho mal-sucedido pode fazer com que ela perca milhões em receita.</p>
<p class=”lead”>Há uns dez anos, a Pepsi resolveu literalmente distorcer o seu icônico símbolo, deixando-o com um aspecto mais… sorridente.</p>
<p class=”lead”>Só que o mercado fez cara feia para a nova marca e, ao invés de aumentar sua participação, a Pepsi viu suas vendas caírem. Um rebranding que no final da história custou a baba de mais de um bilhão de dólares para a empresa na implementação da nova marca.</p>
<p class=”lead”>Pode apostar: apagar o cupido de Vermeer novamente vai sair bem mais barato e deixar, ao contrário do logo da Pepsi, todo mundo mais sorridente.</p>

Como roubar um logotipo

Esse fato eu publiquei há uns dois anos na minha página do FB, mas repito aqui porque até hoje não sei se me divirto ou se me irrito com essa história.

Há uns vinte anos um colega meu da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) propôs uma padronização visual na instituição, que àquela altura tinha uns três ou quatro logotipos diferentes. Criou um símbolo mais moderno, mas que ao longo do tempo não se incorporou de vez como identidade gráfica. Acabou esquecido.

Eis que, alguns anos mais tarde, um time de futebol na India (http://minervapunjabfc.com/ ), na maior cara de pau, resolveu adotar o símbolo para si.

É como se diz no jargão da bola: quem não faz, leva…

Conquiste seu cliente invertendo sua imagem

Nos anos 1970 três pesquisadores publicaram numa revista cientifica um estudo sobre como as pessoas gostam daquilo que lhe são familiares. Para comprovar esse fato, reuniram um grupo de mulheres para fazer parte de uma experiência, que sugeria o seguinte:

1. Pegue uma foto antiga com uma visão frontal do seu rosto – no artigo original os autores utilizaram um negativo da foto, mas lembre-se que isso foi há quarenta anos e pode ser que você nunca tenha visto uma película de negativo na vida. Por isso, deixe-me adaptar o exemplo para os dias atuais.

2. Escaneie essa foto antiga e imprima duas versões dela: uma que mostre você como realmente aparece na foto e outra que mostre sua imagem invertida.

3. Escolha qual versão do seu rosto mais lhe agrada e peça a alguém que faça o mesmo. E aí, provavelmente, algo singular vai acontecer: esse alguém vai preferir a cópia fiel, mas você deverá gostar mais da cópia invertida.

E por que isso acontece? Porque ambos estarão reagindo favoravelmente ao rosto que lhe é mais familiar – seu amigo ou amiga prefere aquele “você” que o mundo vê. E você, ao rosto a que está acostumado a ver refletido no espelho.

Conceber e desenvolver um projeto visual, de certa forma, é como mostrar ao cliente uma foto invertida de si próprio. Quando participo de algum desses projetos, muitas vezes o faço com a certeza de que o cliente vai se encantar de imediato com a minha proposta – e me desencanto quando ele não se identifica com o que vê, e solicita uma outra solução.

É desafiador criar algo pelo qual seu cliente se afeiçoe. Mas quando esse algo evoca nele alguma familiaridade, é sinal de que você está no caminho certo.

Quer seja um produto, quer seja um serviço, a conclusão é a mesma: design não está nos olhos de quem o cria, está nos olhos de quem o consome.